
Tive a grande satisfação de ser uma das autoras deste estudo inovador, publicado na JAMA Ophthalmology, uma das mais importantes revistas científicas de oftalmologia do mundo.
A hipertensão ocular é um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento da doença. Tradicionalmente, nosso tratamento para esses pacientes é baseado principalmente na redução da pressão intraocular.
Nos últimos anos, porém, o glaucoma também passou a ser estudado sob uma nova perspectiva: não apenas como uma doença relacionada à pressão ocular, mas também como uma doença neurodegenerativa na qual alterações no metabolismo e na produção de energia das células podem tornar o nervo óptico mais vulnerável.
É nesse contexto que surge a nicotinamida, uma forma da vitamina B3. Estudos anteriores já haviam investigado seu possível efeito neuroprotetor em pacientes que já apresentavam glaucoma. Nosso estudo trouxe uma proposta diferente e inovadora: investigar se a nicotinamida poderia estar associada a um menor risco de uma pessoa com hipertensão ocular desenvolver glaucoma, atuando potencialmente antes que ocorram danos irreversíveis ao nervo óptico.
Os resultados foram muito interessantes: a exposição à nicotinamida esteve associada a um risco 66% menor de diagnóstico de glaucoma de ângulo aberto. Também observamos 43% menor necessidade de iniciar colírios para redução da pressão ocular e 62% menor necessidade de realizar trabeculoplastia a laser.
Esses achados abrem uma nova e interessante linha de investigação: será que, no futuro, além de controlar a pressão ocular, poderemos atuar também sobre o metabolismo e a proteção das células do nervo óptico para tentar retardar ou até prevenir o desenvolvimento do glaucoma?
É importante ressaltar que este é um estudo observacional. Portanto, apesar dos resultados promissores, eles demonstram uma associação e ainda não significam que a suplementação com vitamina B3 deva ser utilizada para prevenir o glaucoma. Estudos clínicos prospectivos serão fundamentais para confirmar esse possível benefício.
Tenho grande satisfação em fazer parte de um estudo que explora uma abordagem tão inovadora para a prevenção do glaucoma e que pode contribuir para novas formas de pensarmos a doença no futuro.
