
Tive a grande satisfação de ser uma das autoras do primeiro estudo em humanos avaliando uma tecnologia completamente nova para o tratamento do glaucoma: a trabeculotomia de alta precisão guiada por imagem e realizada com laser de femtossegundo, denominada FLIGHT (Femtosecond Laser Image-Guided High-Precision Trabeculotomy).
Publicado na Ophthalmology Science, o estudo “First-in-Human Safety Study of Femtosecond Laser Image-Guided Trabeculotomy for Glaucoma Treatment” representa um passo importante na busca por tratamentos cada vez menos invasivos para o glaucoma.
A grande inovação dessa tecnologia é a possibilidade de criar, com extrema precisão, um pequeno canal através da malha trabecular até o canal de Schlemm utilizando o laser de femtossegundo e imagens para guiar o tratamento. O objetivo é melhorar a drenagem natural do líquido do olho e, consequentemente, reduzir a pressão intraocular.
E o mais interessante: o procedimento é realizado sem incisões cirúrgicas convencionais e sem a implantação de um dispositivo dentro do olho. É um conceito que aproxima o tratamento do glaucoma de uma intervenção não invasiva, precisa e guiada por imagem.
Os resultados aos 24 meses foram muito promissores. A pressão intraocular média apresentou redução de aproximadamente 35%, passando de 22,3 mmHg para 14,5 mmHg. Além disso, mais de 80% dos olhos alcançaram uma redução de pelo menos 20% da pressão intraocular.
Outro achado particularmente importante foi a durabilidade do tratamento: os canais criados pelo laser permaneciam visíveis e abertos após dois anos de acompanhamento. Também não foram observados eventos adversos graves relacionados ao tratamento com laser nesse estudo inicial.
Por se tratar de um estudo pioneiro, realizado pela primeira vez em seres humanos, esses resultados são especialmente relevantes. Eles representam as primeiras evidências clínicas sobre o potencial dessa nova tecnologia e abrem caminho para estudos maiores que possam definir seu papel no futuro tratamento do glaucoma.
Tenho enorme satisfação em ter participado como autora deste estudo first-in-human e em fazer parte de pesquisas que avaliam tecnologias antes mesmo de elas se tornarem disponíveis na prática clínica. A possibilidade de tratar o glaucoma de maneira cada vez mais precisa, menos invasiva e guiada por tecnologia representa uma das direções mais interessantes da nossa especialidade.
A FLIGHT ainda é uma tecnologia em investigação e não está disponível para uso rotineiro no Brasil.
